O que é que a Baiana Tem?: a riqueza dos balangandãs

Balangandãs, Barangandã, Berenguendens - Por Renato Araújo da Silva

O que é que a baiana tem? Tem torço de seda, tem! Tem brincos de ouro, tem! Corrente de ouro, tem! Tem pano-da-Costa, tem! Tem bata rendada, tem! Pulseira de ouro, tem! (...) Um rosário de ouro com uma bolota assim... Quem não tem balangandãs não vai no Bonfim...


Foto: Harold Schultz

Ilustração Brasileira. No. 60 - ano XVIII, Abril de 1940


A canção imortalizada na voz do grande baiano Dorival Caymmi (1914-1908) sintetiza o uso de adornos exuberantes como a própria essência feminina da mulher baiana e internacionalmente, por extensão, o imaginário da “mulher brasileira”. Num certo sentido o próprio Balangandã também pode ser encarado como uma joia substancial que compõe e reúne o aparato e o design da joalheria baiana.


O termo “balangandã” (barangandã, berenguendem), pelo que parece, tem origem banta bulanganga (balançar) ou mbalanganga (penduricalho). Mas os pesquisadores parecem concordar que o termo tem característica onomatopaica, isto é, surgiu a partir da percepção do som característico que produzia a joia no sacolejar das mulheres que andavam com elas amarradas nas cinturas: “balangandam, balangandam...”. É um adorno feminino que possui na parte superior uma alça chamada “nave”, produzida em ouro ou prata que, não raramente, possui grafismos figurativos com representações de anjos, rostos, flores estilizadas, pássaros, entre outros motivos ornamentais presos por uma corrente (também chamada “correntão” ou “grilhão”). Aproveitando-se da parte superior como suporte, a parte inferior é constituída de “pingentes” que são chamados “molhos” ou, imprecisamente, “pencas de balangandã”. Esses pingentes estão associados a uma infindável significação e conteúdo simbólicos. Embora sejam famosos os balangandãs em metal (especialmente os produzidos em prata) o uso de marfim, coral, madeira, pedras e diversos materiais também fizeram parte da prática de ornamentação da baiana do século XIX.   


Analisando joias africanas dispostas em coleções de museus é possível definir com segurança que os balangandãs são exemplos correlativos de “joias amuleto” encontradas em regiões variadas do continente africano. Tanto sua função quanto, até certo ponto, sua forma podem ser remetidos a modelos da joalheria de proteção espiritual africana. Embora seja uma prática que reconheceu um forte declínio a partir do séc. XX é ainda possível encontrar hoje imitações e mulheres dispostas a utilizá-las para reviver, à sua maneira, a grande exuberância do passado. Historicamente era enfeite indispensável das mulheres do período colonial, negras baianas (escravas de ganho ou alforriadas), que usavam a gala nas festas da Igreja do Nosso Senhor do Bomfim, Conceição da Praia, Nossa Senhora da Boa Morte, São Beneditino, Espírito Santo, especialmente na Sexta-Feira Santa e no Sábado de Aleluia, e em outras ocasiões especiais. As irmandades negras eram sociedades bem organizadas para as quais o requinte e o luxo nos eventos significativos eram modos de demonstrar seu alto grau de influência.


Os pingentes (penduricalhos também chamados de “tetéas”) de balangandãs são compostos por uma infinidade de peças que podem ter origens africanas, europeias ou brasileiras. Os motivos, as formas e funções variam conforme o modelo do balangandã e a crença pessoal envolvida no uso desta joia. Genericamente, é possível identificar grandes categorias e todas elas muito simbólicas como uso de frutos, animais, exemplares da flora, símbolos da religiosidade católica ou afro-brasileira, símbolos da superstição popular e objeto exógenos, isto é, que não pertencem necessariamente ao contexto espiritual ou das crendices como bolas, apitos, bonecas, cadeados etc., instrumentos musicais, moedas e medalhas, apetrechos de uso domésticos, objetos do cotidiano e diversos outros elementos puramente decorativos.


Genericamente o balangandã é uma joia protetiva, isto é, uma joia amuleto que serve para proteção espiritual de sua usuária. Os balangandãs podem ser devocionais, ou seja, aqueles que envolvem a devoção sincretizada a um orixá e/ou a algum santo da Igreja Católica (cujos pingentes podem ser a espada de São Jorge que representa o embate guerreiro; a pombinha que representa o Espírito Santo; além de cruzes e crucifixos; Votivos, ou seja, aqueles que representam uma graça alcançada, funcionando como “ex-votos” (cujos pingentes podem ser miniaturas de cabeças, seios, pés, pernas, corações etc.) – o “ex-voto” é uma abreviação da frase latina ex-voto suscepto, que significa “do voto (promessa) feito”; são figuras que servem como “provas” da existência de “milagres de cura”, seguidos do cumprimento de uma promessa religiosa em forma da parte do corpo antes afetada pela doença. Pode-se categorizar os balangandãs ainda como Propiciatórios, ou seja, aqueles que propiciam a felicidade, boa sorte, fortuna ou amor (cujos pingentes são barris de ágata, figas, dentes de jacaré, moedas etc. Por fim, há os balangandãs  Evocativos, ou seja, aqueles que representam um acontecimento alegre ou uma recordação significativa (cujos pingentes podem ser cachos de uvas, símbolos de fartura, tambores, elementos pessoais de lembrança afetiva e assim por diante).


É certo que a tradição estilística desta joia crioula é um item que merece um estudo especial, mas o ponto de vista simbólico do balangandã é o que mais salta os olhos, dado a sua grande variedade e muitas vezes singularização de ordem pessoal e de crença subjetiva. Dentre as representações mais comuns destes amuletos e muitas delas conhecidas fora do contexto da Bahia, temos: a figa, como elemento de boa sorte e peça contra mau-olhado; a moeda como fortuna, o galo é vigilância, como um símbolo católico que anuncia o dia, e, simbolicamente, o nascimento de Cristo – tal é a significação da missa do galo pregada pelo papa na véspera de natal; a romã, como um símbolo da fertilidade e prosperidade; a aranha, como a tentação; o trevo como a felicidade conjugal; a lua como símbolo para São Jorge (Oxum ou Oxóssi, na Bahia...); o porco, como símbolo para Santo Antônio (Xangô); o cão, como São Lázaro (Omolu); a moringa d’água como São Cosme e Damião; o coração, a paixão; as mãos dadas são símbolos da amizade; o chifre previne contra a inveja, a palmatória é símbolo de Nanã; a ferradura é signo da felicidade. Os balangandãs, essa alma que transparece a sensibilidade e a exuberância do design de joias afro-brasileiras, na base de suas diversas significações, comportam o universo fascinante das forças vitais dos ancestrais, que são os verdadeiros guardiães do Axé.


-- > Para quem quiser saber mais sobre os balangandãs e joias afro-brasileiras:


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Referências:

TALENTO, B. A memória preservada nos balangandãs. O Estado de S. Paulo. Caderno 2, p. 3, 23 de out.,2004.   

PAIVA, E. F. Pequenos objetos, grandes encantos. Rio de Janeiro: Revista Nossa História, ano 1, n. 19, p. 58-62, 2004.

LODY, R. Balangandãs. In: Dicionário de arte sacra & técnicas afro-brasileiras. Rio de Janeiro: Pallas, 2003, p.221.

__________. Jóias de Axé: fios-de-contas e outros adornos do corpo - a joalheria afro-brasileira. Rio de Janeiro: Ed. Bertrand Brasil, 2001.

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